Com cerca de 8,9 mil quilômetros quadrados, área próxima a um Distrito Federal e meio, Porto Rico ocupa uma posição singular no mapa político das Américas. Localizada no Caribe e com aproximadamente 3,2 milhões de habitantes, a ilha é um território sob soberania dos Estados Unidos, mas não integra formalmente a federação norte-americana. O espanhol é o idioma predominante, e a cultura segue fortemente vinculada à América Latina.
Os porto-riquenhos têm cidadania dos Estados Unidos, podem circular livremente pelo território continental e elegem o governador local. Ainda assim, não votam para presidente e não contam com representantes com direito a voto no Congresso em Washington. Apesar dessa limitação política, estão sujeitos às leis federais, servem às Forças Armadas norte-americanas e convivem com bases militares instaladas na ilha.
Essa combinação de direitos parciais e deveres integrais alimenta o debate sobre o real status do território. Movimentos políticos e parte da comunidade acadêmica classificam Porto Rico como uma colônia contemporânea dos Estados Unidos, ainda que o termo oficial seja Estado Livre Associado. Para a Organização das Nações Unidas, a autonomia administrativa concedida a partir de 1952 impede que a ilha seja enquadrada como uma colônia clássica.
Em entrevista à Agência Brasil, o professor de relações internacionais da Universidade Católica de Brasília, Gustavo Menon, explica que Porto Rico possui mecanismos próprios de governo, mas permanece subordinado a decisões centrais tomadas em Washington. Segundo ele, trata-se de uma soberania administrativa restrita, sem equivalência aos direitos garantidos aos demais cidadãos norte-americanos.
“Os porto-riquenhos não votam para presidente, não têm representação política no Congresso dos EUA, mas estão sujeitos às leis federais e decisões de Washington, sendo frequentemente descrito como uma verdadeira colônia. É um resquício neocolonial que persiste nessa primeira metade do século 21”, afirmou o especialista.
Bad Bunny, visibilidade global e política
A discussão ganhou projeção internacional após a apresentação de Bad Bunny no show do intervalo do Super Bowl, realizado no domingo (9), em São Francisco. Foi a primeira vez que o espetáculo foi cantado integralmente em espanhol. Durante a apresentação, o artista destacou a cultura latino-americana e a presença de imigrantes nos Estados Unidos.
Conhecido por críticas à política anti-imigração do presidente Donald Trump, o cantor utilizou o slogan “Deus abençoe a América”, inscrito nas cédulas de dólar, para emendar uma citação nominal de países latino-americanos, defendendo que a bênção se estendesse a todo o continente. Bandeiras de Porto Rico, Cuba, Brasil, Venezuela e outras nações das Américas foram exibidas no estádio.
Trump reagiu negativamente. “Não faz sentido nenhum, é uma afronta à grandeza da América e não representa nossos padrões de sucesso, criatividade ou excelência. Ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo, e a dança é repugnante”, escreveu o presidente em uma rede social.
A obra de Bad Bunny tem se destacado pela defesa da identidade porto-riquenha e pela crítica à influência política e cultural dos Estados Unidos na ilha. Em uma das canções apresentadas no Super Bowl, o artista cita o Havaí, que se tornou estado norte-americano em 1959, como exemplo de perda de identidade indígena após a anexação.
“Eles querem tirar meu rio e minha praia também. Eles querem meu bairro e que a vovó vá embora. Não, não solte a bandeira nem se esqueça do lelolai [técnica de canto presente na música folclórica de Porto Rico]. Porque eu não quero que façam com vocês o que aconteceu com o Havaí”, diz a letra.
Da colonização espanhola ao impasse atual
Porto Rico foi colônia da Espanha até o fim do século 19. Após a guerra hispano-americana de 1898, a ilha passou ao controle dos Estados Unidos, assim como Cuba e as Filipinas. Em 1917, os habitantes receberam cidadania norte-americana. Em 1952, o território passou a ser classificado como Estado Livre Associado, com autonomia administrativa interna.
Menon observa que, para a elite política de Washington, Porto Rico funciona como um protetorado. Ele destaca que a ilha jamais foi independente e avalia que Bad Bunny exerce um papel de soft power ao associar Porto Rico simbolicamente às demais nações latino-americanas.
No âmbito internacional, Porto Rico não integra a lista de Territórios Não Autônomos da ONU. Ainda assim, o Comitê Especial sobre Descolonização classifica o caso como uma “situação colonial”. Em relatório de março de 2025, o relator Koussay Aldahhak afirma que o Congresso dos Estados Unidos detém plenos poderes sobre áreas estratégicas da ilha, como defesa, comércio exterior e política monetária.
Desde 1967, Porto Rico realizou sete referendos consultivos sobre seu status político. No mais recente, em 2024, 58% dos votantes optaram por se tornar um estado norte-americano. As consultas, porém, não têm efeito vinculante e dependem de decisão do Congresso dos Estados Unidos, o que mantém o futuro político da ilha em aberto.
Fonte: Agência Brasil
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