A crescente prevalência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como diabetes, hipertensão arterial e obesidade transformou-se em uma das principais ameaças ao equilíbrio econômico do sistema de saúde brasileiro, alerta o médico e gestor em saúde Hans Dohmann. Segundo pesquisa da Fiocruz, o impacto financeiro dessas condições já ultrapassa R$ 10 bilhões por ano em custos atribuíveis a dietas ricas em alimentos ultraprocessados, refletindo tanto em despesas do setor público quanto em perdas de produtividade da população economicamente ativa.
Especialistas em saúde pública classificam as DCNTs como um importante fator de risco para a sustentabilidade dos gastos em saúde, especialmente em um país com população envelhecendo rapidamente. Doenças como diabetes tipo 2, hipertensão e dislipidemias exigem acompanhamento contínuo, uso de medicamentos de alto custo e internações prolongadas, criando um ciclo de demanda constante por serviços médicos e hospitalares. Estudos da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) mostram que a combinação de fatores comportamentais como alimentação inadequada, sedentarismo e tabagismo intensificam a carga dessas condições, ampliando o uso de recursos de saúde e pressionando orçamento público e privado.
O combate à epidemia silenciosa
Para Dohmann, a abordagem reativa centrada no tratamento tardio não é sustentável. “Estamos lidando com condições que se acumulam ao longo do tempo e que, se não forem gerenciadas de forma proativa, se transformam em um ônus financeiro e social enorme”, afirma o especialista. Ele aponta que o foco em atenção primária à saúde, prevenção e promoção de hábitos saudáveis não é apenas uma questão de política pública, mas uma necessidade econômica urgente.
Essa perspectiva encontra suporte em análises internacionais da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que ressaltam que o investimento em prevenção e controle de DCNTs gera retornos significativos, incluindo redução de custos de tratamento, aumento da produtividade e melhoria dos indicadores de saúde populacional. Segundo a entidade, para cada dólar investido em ações de prevenção comunitária e modificação de fatores de risco como redução do tabagismo e promoção de dietas saudáveis há um retorno econômico substancial decorrente da redução de internações e complicações crônicas.
Além disso, o aumento da obesidade e de distúrbios metabólicos também tem reflexos na produtividade laboral e na economia em geral. Pessoas com condições crônicas tendem a ter mais dias de afastamento do trabalho, maior uso de serviços de saúde e menor capacidade de contribuição ao mercado de trabalho, o que se traduz em perdas econômicas diretas e indiretas para o país. “A prevenção não é apenas um conceito de saúde pública, é uma estratégia de desenvolvimento econômico e social”, conclui Dohmann.
Educação e prevenção como ferramentas no SUS
No Brasil, o cenário é agravado por desigualdades regionais e socioeconômicas. Populações de menor renda tendem a ter maior exposição a fatores de risco, como alimentação baseada em produtos ultraprocessados e menor acesso a práticas preventivas. Isso cria um ciclo de vulnerabilidade: quanto menor o acesso à prevenção e ao diagnóstico precoce, maiores os custos futuros com tratamentos complexos e internações hospitalares. Para Dohmann, a reorganização da atenção primária e o uso estratégico de dados em saúde são caminhos essenciais para interromper essa trajetória.
Hans Dohmann ainda defende que a transição de um modelo centrado na doença para um modelo orientado à prevenção é decisiva para a sustentabilidade do sistema. “O Brasil precisa investir em monitoramento contínuo de fatores de risco, educação em saúde e integração de informações clínicas para agir antes que a doença se instale ou se agrave”, afirma. Segundo ele, a combinação entre políticas públicas eficazes, tecnologia e gestão baseada em evidências pode reduzir custos estruturais e preservar a capacidade produtiva da população, transformando a prevenção em uma estratégia econômica de longo prazo.
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